É possível escrever como se fala?

Em artigo intitulado “Deixem a ortografia em paz”, publicado no Correio Braziliense no último dia 9, o historiador e editor Jaime Pinsky faz uma crítica à intenção do Senado brasileiro de implementar uma nova reforma ortográfica – a “reforma da reforma” – com o objetivo de fazer com que se escreva como se fala e, assim, facilitar o aprendizado da língua pelos nossos estudantes.
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O autor faz várias críticas pertinentes ao projeto. Em primeiro lugar, ele lembra que as línguas têm história:

“Elas resultam de práticas sociais que as moldaram para que aqui chegassem do jeito que são. São fatores fonológicos, morfológicos, etimológicos e de tradição cultural que fizeram com que nossa língua seja grafada do jeito que é. Línguas também têm parentesco, e nossa origem latina comum permite que possamos ler com relativa facilidade (mesmo que não falemos) outras línguas como o espanhol, o francês e o italiano. Mesmo o inglês, graças ao enorme contingente de palavras de origem latina, fica mais acessível a partir de grafias semelhantes. Arrancar as raízes de nossa ortografia seria romper com importantes aspectos de nossa identidade histórica.”

Aponta também o aspecto prático da reforma, já que a implantação do atual sistema demandou um grande esforço por parte de editoras e o investimento de milhões de reais na reedição de obras. Repetir o processo poucos anos depois levaria editoras à falência, obrigaria governos a gastar mais dinheiro público na substituição dos acervos de suas bibliotecas, além de outros descalabros.

Jaime Pinsky alerta, além disso, para a exclusão social que essas reformas provocam, na medida em que boa parte dos adultos não consegue se adaptar ao novo sistema.

Mas o ponto levantado pelo articulista que quero discutir aqui é a questão da chamada “ortografia fonética”, aquela em que se escreve como se fala. Pinsky argumenta:

“Fico curioso a respeito de como vai se escrever, por exemplo, aquilo que na ortografia atual é denominada Estação das Barcas (lá na Praça Mauá, no Rio de Janeiro). Para “fazer justiça” à pronúncia, deveríamos grafar “Ijtação daj Barcaj” ou Ixtação dax Barcax”? Fora do Rio, talvez “Istação”, ou ainda “Stação”, como muita gente fala, já que poucos dizem “estação”, além dos curitibanos…

E como redigir o quarto mês do ano? “Abriu”, como dizem muitos brasileiros, “abril”, como diriam alguns gaúchos, ou “abrir”, como parte dos paulistas, mineiros, paranaenses e outros pronunciam? Cabe ao leitor pensar em outros exemplos”.

Essa questão é volta e meia levantada por algum especialista quando se discute reforma ortográfica – até o acadêmico Evanildo Bechara já usou um argumento parecido com o de Pinsky para refutar a aplicabilidade de uma ortografia cem por cento fonética. O que poucos levam em consideração nesse debate (talvez por não terem formação em linguística) é a oposição, proposta por Saussure há um século, entre língua e fala (langue e parole) e, consequentemente, entre fonemas e sons da fala. É evidente a qualquer um que, num universo de milhões de falantes, haja pelo menos algumas centenas de modos de pronunciar as palavras. Logo, um sistema que se propusesse representar o modo como se fala seria, por princípio, impraticável. No entanto, apesar de toda essa variedade de pronúncias, nosso sistema fonológico tem-se mantido estável, com os mesmos 33 fonemas, há vários séculos. O que dá unidade à nossa língua são exatamente esses 33 fonemas e a rede de oposições funcionais que se estabelece entre eles (o mesmo não se pode dizer do léxico ou da sintaxe). Se a escrita deve representar a língua e não a fala, então é óbvio que uma ortografia puramente fonética seria não só inútil como inviável. Já uma ortografia fonológica, que busque representar de modo único – ou pelo menos inequívoco – cada um dos fonemas do idioma é perfeitamente viável, tanto que já existe em línguas como o norueguês e o croata.

Mas o exemplo mais próximo e, a meu ver, mais perfeito que temos de uma ortografia fonológica (ou fonêmica, se preferirem), e que já existe há muitos séculos, se encontra no italiano. Sem renunciar à sua história, essa língua adotou muitas simplificações que permitem a qualquer um, até mesmo estrangeiro, pronunciar com facilidade um texto escrito (talvez o único embaraço seja a não indicação gráfica da sílaba tônica), assim como grafar corretamente as palavras a partir de um ditado. Se o “g” e o “j” tinham o mesmo som, eliminou-se o “j” e adotou-se o “g” em seu lugar; se o “h” é mudo, ele simplesmente desaparece da escrita; se o “x” soa como “s” ou “ss”, grafa-se “s” ou “ss”… Simples assim!

A dificuldade de implantar um sistema como esse em português é que temos muito mais letras e dígrafos homófonos do que o italiano: “c”, “ç”, “s”, “ss”, “sc”, “sç”, “x”, “xc”, “xs”, todos soando /s/; “z”, “s” e “x” soando /z/; isso sem falar em “x” e “ch”, “g” e “j”, etc. Talvez, aplicada ao nosso idioma, uma grafia fonológica, ainda que factível e uniforme para todos os falantes, pareceria demasiado estranha, rompendo com a tradição histórica não só portuguesa mas das línguas românicas (pense-se em grafias como “sentro”, “obgeto”, “xave”, “trânzito”, etc.).

É verdade que em italiano encontramos esamemassimoGesùgiornaleoroscopo, mas, como eu disse, essas grafias já existem há muito tempo e foram estabelecidas numa época em que a maioria dos falantes era analfabeta, portanto sem encontrar grande resistência por parte da população. A grafia “enxuta” do italiano não rompeu com a historicidade da língua; pelo contrário, ela fez a história da língua!

De qualquer maneira, a passagem de “physica” a “física” na reforma ortográfica brasileira de 1943 também causou estranheza no princípio, mas acabou assimilada. Nada impede que um novo sistema, desde que coerente, também o seja. Nesse caso, argumentos de ordem econômica, como o enorme gasto de dinheiro na reedição de livros e substituição de acervos, são os que devem pesar mais contra a inoportuna ideia dos senadores de realizar mais uma reforma.

Por Aldo Bizocchi

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Sobre wellingtongouveia

Professor e Pós-graduando em Docência do Ensino Superior.
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